UM HINO À COMUNHÃ O ENTRE HOMEM E NATUREZA: “OBRIGADO, MÃE TERRA!”.
“Agradecemos
à nossa mãe, a Terra
por nos dar
tudo aquilo de que precisamos
para viver…”
Não pude estar na estreia de mais um brilhante espectáculo dos alunos do Curso de Teatro da Escola D. Pedro V, mais propriamente dos elementos do seu 12º ano, comandados por Gonçalo Barata, um Homem de Teatro que tem vindo a subir a parada em cada encenação sua. E a cuja estreia, no Auditório respectivo, não pude estar presente por motivo de doença.
Felizmente, e foram 5 os convites que tiveram para se apresentarem fora da Escola a que puderam, apenas por motivos da disponibilidade de vários elementos do elenco, puderam deslocar-se à Amadora, a um Festival de Teatro organizado pelo grupo cénico.
Foi, há algum tempo que o professor Amílcar, Martins, conhecido homem de Teatro português, depositou nas mãos de Gonçalo Barata, o texto maravilhoso de uma oração poética criada, em forma de poema – a sua publicação pela prestigiada editora AKIARA
de Barcelona, com a forma de um livro desdobrável com 3 metros de comprimento – uma prece dos índios iroqueses, que vivem, de um e outro lado da fronteira entre os Estados-Unidos e Canadá, sua ligação ao mundo, a um universo de cujas boas graças dependem eles e todos nós. E cuja harmonia com os seus habitantes, por ser constantemente ferida e desrespeitada, dá origem a grandes calamidades e desastres ecológicos, como aqueles que presentemente, entre nós, estamos a sofrer.
Trata-se de um hino à Mãe Natureza – ao sol, lua, ventos, chuva, estrelas – cuja harmonia tenta ser preservada por muitos povos “primitivos actuais” cientes de que do respeito por aquela, depende a nossa, e a deles, sobrevivência. Corrompida pela desenfreada ambição do lucro, pela cupidez de tantos homens políticos que, inclusivamente, negam as evidências científicas face ás alterações climatéricas graves que, por todo o planeta, se estão a dar, pondo em risco o meio ambiente e a qualidade de vida das gerações futuras.
ENCENAÇÃO E INTERPRETAÇÃO BRILHANTES
Falemos agora de como Gonçalo Barata resolveu encenar um texto de grande expressão poética – não é poesia o que sai do mais profundo de homens que ainda guardam uma comunhão profunda com a Natureza que habitam e da qual dependem, passada de geração para geração? – levantando vários e múltiplos desafios.
Aqui o encenador resolveu que os espectadores fossem nómadas, percorrendo vários espaços, numa viagem iniciática, fazendo o seu “caminho de Damasco” até ao palco e se sentarem na plateia. Como preparação para o devir, o que irá acontecer. Porque o tema é um assunto que nos toca a todos, colectivamente. E alternando o texto – nas suas frases tão simples – com o Movimento, uma espécie de liturgia, de oração dita e bailada numa conjugação estupenda. Usando vários adereços como a água (a chuva), os peixes (os rios e quem os povoa), os espelhos (o sol), os ventos (os telões ou “pernas” cénicas) e as bonecas Abayomi (elo de ligação entre as mães arrancadas às suas terras de origem, violentamente, pelo negócio da escravatura, elo de ligação entre ela e os seus filhos, delas separados à força, sinal das suas raízes e identidade, de um possível reencontro possível no futuro.
E ainda utilização do livro – o tal desdobrável de 3 m – como significativo adereço de cena, lembrando-nos de que este é o ponto de partida do espectáculo, definindo espaços, assumindo diversos significados. Como um convite à sua leitura – os livros encontravam-se à venda no Foyer do Teatro – sabendo que um – regular e persistente hábito de ler alarga os horizontes e ainda o vocabulário e a própria escrita.
E é tudo tão emocionante, tão presente no nossos dias de hoje, neste momento também no país que habitamos, com um ritmo tão vibrante, que nos encontramos perante um espectáculo que faz inveja a muitos profissionais. A que se deve acrescentar um desenho de luz e de som que servem este louvor à uma Natureza tantas vezes subestimada e violentada. E que se vem vingando através do seu veemente protesto: tempestades, cheias, ventos ciclónicos, chuvas torrenciais. De que muitos senhores do mundo continuam a desrespeitar, ignorando ostensivamente os sinais e gritos de aviso de um meio ambiente ferido e revoltado.
Falar, sabendo de apenas um mês de ensaios e destes, de muito pouco tempo no palco, mais outros, poucos também. na adaptação a um palco e espaço diferentes na Sociedade de Recreios da Amadora, um grande abraço de parabéns a uma equipa de actores maravilhosa e que funcionou, fora pequenas falhas, como um todo, demonstrando que o Teatro é uma Arte colectiva, a que se acrescentam os técnicos desde o contra-regra, a quem trabalha no som e na luz, no seu desenho perfeito, nos bastidores, para que tudo corra pelo melhor. Parabéns extensivos para a aluna que foi substituir, à última hora, quem não podia estar presente: Maria Barbosa. Sabendo que uma substituíção é sempre difícil pois não acompanhou os ensaios desde o início.
No final houve uma esclarecedora conversa entre actores, encenador e público. Foi um espectáculo que, de facto, me comoveu e nos alertou a todos, de uma forma muito bela, para um problema instante e grave: as alterações climatéricas. Que nos afectam a todos nós, pagando, tantas vezes , os justos por aqueles que insultam o chão em que vivemos e do qual dependemos. Bem como a nossa qualidade de vida e até sobrevivência.
Por tal, como se afirma e nos lembra, este estupendo poema e espectáculo:
“AGORA AS NOSSAS MENTES SÃO UMA SÓ.”
TEXTO: a partir do livro, “OBRIGADO, MÃE TERRA”. TRADUÇÂO: Catarina Sacramento. CENOGRAFIA E FIGURINOS: Colectivo. ADEREÇOS: Maria José Jacinto, Betty Andrade e Manuela Lino. colectivo. GESTÃO DE ADEREÇOS: Daniela Silva e Ellyn Ivencio. GESTÃO DE FIGURINOS: Colectivo. OPERAÇÃO DE LUZ: Lutónia Garcia. CARACTERIZAÇÃO: Marcella Marinho e Guilherme Alvez. PRODUÇÃO EXECUTIVA: Miriam Ribeiro. PRODUTORES: Gabrielly Silva, Noemi Neto e Rita Santinhos. CONTRA-REGRA: Catarina Mata e Sofia Serrote. CAMARINS: Miguel dos Reis e Santiago Pinheiro. FRENTE DE SALA E COMUNICAÇÃO: Julyenne Pires e Sofia Serrote. FOYER: Joana Marques Mendes, Iara Costa, Sofia Serrote e Guilherme Alvez. GRAFISMO: Manuela Lino. PRODUÇÃO: 12º13 – Intérprete/Actor/Actriz – Escola D. Pedro V e Akiara Books- Barcelona. COMEDIANTES: Daniela Silva, Gabrelly Silva, Joana dos Santos , Joana Marques Mendes, Marcellla Marinho, Miguel dos Reis, Miriam Ribeiro, Noemi Neto, Santiago Ribeiro, Sofia Serrote, Catarina Mata, Julyenne Pires, Iara Costa e Maria Barbosa. DESENHO DE SOM E ENCENAÇÃO: Gonçalo Barata.
5 de Fevereiro, na Sociedade Recreios da Amadora.
Tito Lívio
