Análise ao espectáculo “O diário de Anne Frank” adaptação de Carlos Lacerda

UM ESPECTÁCULO TEATRAL QUE ARRISCA: “O DIÁRIO DE ANNE FRANK” PELOS ALUNOS D O 1Oº ANO DA ESCOLA D. PEDRO V.

“Numa altura em que o mundo está consideravelmente a ser desafiado, em que teimam em nos voltar a colocar nos tempos medievais, a urgência levou-nos a intervir. (1)

Há muito que vou assistir aos espectáculos do Curso de Teatro da Escola Secundária D. Pedro V que abrange os 10º, 11º e 12º anos. Daqui, da acção e ensinamento dos seus professores, têm saído muito alunos que aprendem a amar o Teatro, dado juntamente com as disciplinas curriculares, e que, mais tarde, o abraçam em cursos já do ensino superior, como actores ou produtores.

“O Diário de Anne Franck” faz parte do currículo de livros a ser lidos no Secundário. Diário confessional e íntimo que Anne nascida na cidade alemã de Frankfurt, em 1929, começou a escrever quando, para fugir á feroz perseguição dos nazis aos judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, ela e a sua família se refugiaram num anexo secreto, de um casal amigo. Até, que, foram denunciados e levados para o campo de concentração de Bergen-Belsen. Donde só escaparia o seu pai, que divulgaria este seu “Diário”

Que é a visão de uma adolescente sobre a perseguição anti-semita a partir do mito da raça ariana pura que era um dos pontos essenciais da doutrina nazi. Anne teria cerca de 15 anos quando o escreveu e é um testemunho de uma jovem que não sabe nem compreende os porquês de tudo o que lhes está a acontecer e que, pela rádio clandestina ou os ecos que lhe vêm pelos donos da casa, vibra com a progressão das tropas aliadas.

O livro narra-nos o seu dia-a-dia, as suas esperanças para o futuro, e serve de escape para o exílio forçado de uma adolescente. E tornou-se, depois de divulgado, rapidamente, um sucesso global: publicado em mais de 50 países e traduzido em mais de 70 idiomas.

PEDAGOGIA DA HISTÓRIA E DE UM TEATRO DOCUMENTAL

Gonçalo Barata quis arriscar num universo em que há até quem se atreva a negar a existência dos campos de concentração, e em que muitos jovens – que não viveram a ditadura salazarista – são captivados, em Portugal e por essa Europa fora, por doutrinas de extrema-direita que representam um retrocesso político, humanista e cultural. E nada melhor do fazer sentir, na pele, de muitos dos espectadores, o que sofreram os judeus, aqui personificados por Anne Frank e a sua família.

Para os alunos que tão bem acolheram esta experiência foi uma lição de vida e civilidade, o mesmo para os espectadores que tiveram de percorrer, obrigados por actores fardados de soldados nazis – o detalhe do pormenor nos figurinos -vários espaços, empurrados para um local simulando um campo de extermínio de gás, onde estivemos comprimidos e claustrofóbicos, sem nos podermos livrar das ordens dadas, em voz imperiosa e em alemão, que nos iam empurrando para outros lugares.

O detalhe dos figurinos que ajudaram a “vestir” as personagens que teciam um discurso feroz de ódio, hoje muito em voga entre nós, o vídeo que nos dá conta da vida de Anne Frank, como refugiada, a esperança que nunca perdeu da sua libertação – embora com algumas falhas na captação das vozes – a sensação dos espectadores de que nunca estavam seguros num só lugar, os gritos constantes dos militares nazis, tudo isto foi deveras coerente como lição da história e de vida que é, de resto, uma grande função do Teatro. Dar testemunho, através da voz e escrita de uma adolescente, de um desastre histórico que matou milhares de judeus, opositores, ciganos e homossexuais.

Gostei particularmente da Anne Frank de Sara Figueira, do Hitler convincente e sinistro de Denis Rosa, e, do conjunto de todos os intervenientes a que se juntaram alguns alunos do 11º ano. As vozes têm de ser mais bem trabalhadas (projecção e dicção), o movimento foi exemplar mas estamos a falar de alunos que são iniciantes nas técnicas teatrais. Amadores, e todos os que amamos o Teatro, também o somos. Muito boa a inserção de um discurso de Winston Churchil a declarar a resistência enorme do povo britânico bem como a celebração da Liberdade – liberté – final, com a projeção da bandeira francesa. E a excelente banda sonora e desenho de luz habituais nas peças encenadas por Gonçalo Barata.

Apesar de algumas limitações valeu bem a pena os riscos corridos e eis um espectáculo que irá ficar, para sempre, na memória de quem colaborou e dele fez parte.

Portanto parabéns a toda a equipa.

A Estrelinha que fundou esse Curso, tão exigente que era, deverá ter amado este “Diário de Anne Frank”.

“Somos artistas e temos voz. Este espectáculo permite-nos falar abertamente e expor os nossos pontos de vista a problemas actuais…ele tem uma força enorme e a adaptação feita por Carlos Lacerda (marido da actriz Estrela Novais) está fantástica. (2).

(1e 2) Palavras de Gonçalo Barata no programa da peça.

AUTORA: Anne Frank. ADAPTAÇÃO: Carlos Lacerda. APOIO A VOZ: Cecília Sousa. APOIO A MOVIMENTO: Vítor Sezinando. ADEREÇOS: Maria José Jacinto, Manuela Lino; Colectivo. GESTÃO DE ADEREÇOS: Daniel Fernandes e Miguel Fandango. CENOGRAFIA E FIGURINOS: Designer Carlos Sanches: Escola Secundária de Arganil; Colectivo. GESTÃO DE FIGURINOS: Catarina Mota e Leonor Pereira. DESENHO E OPERAÇÃO DE LUZ: Gonçalo Barata. CARACTERIZAÇÃO/CABELOS: Sara Figueira e Diogo Moleiro. PRODUÇÃO EXECUTIVA: Catarina Mata e Diogo Moleiro. PRODUTORA: Alice António. CONTRA-REGRAS: Iara Costa e Sara Bento. FRENTE DE SALA: Julyenne Pires, Allia Jorge e Renata Cruz. CAMARINS: Alice António e Gabriel Coelho. FOYER: Catarina Mata, Sara Figueira, Leonor Pereira, Miguel Fandango, Renata Cruz, André Azi, Maria Barbosa, Madalena Nestório, Lizandro Freire e Rita Santinhos. PALCO: Iara Santos, Diogo Moleiro, Daniel Fernandes, Sara Bento, Gabriel Coelho e Alice António. TRADUÇÃO EM ALEMÂO: Susana Flórido Martins e Marc Flórido Martins. TRADUÇÃO EM HOLANDÊS: Francisco Ribeiro. TRADUÇÃO EM FRANÇÊS: Gonçalo Barata. GRAFISMO: Manuela Lino. OPERADORAS DE CÂMARA: Allia Jorge e Julyenne Pires. GRAVAÇÃO DE VÍDEO/EDIÇÃO DE VÍDEO: São Ludovino. GRAVAÇÃO DE VÍDEO: Sandra Neves e Daniel Castanho. EQUIPA TÉCNICA: Catarina Mota, Miguel Fandango e Rita Santinhos. COMUNICAÇÃO: Sara Figueira e Diogo Moleiro. PRODUÇÃO: 10º/-13 Intérprete/Actor/Actriz e Biblioteca Escolar D. Pedro V. APOIO À PRODUÇÃO: 11º13- Intérprete/Actor/Actriz Es D.Pedro V. INTÉRPRETES: Sara Figueira, Diogo Moleiro, Leonor Pereira, Sara Bento, Miguel Fandango, Daniel Fernandes, Alice António, Gabriel Coelho, Iara Costa (Convidada), Catarina Mata (Convidada).

NAZIS: Dinis Rosa, André Azi, Maria Barbosa, SOLDADOS NAZIS E ALIADOS: Rita Santinhos, Renata Cruz, Madalena Nestório, Lizandro Freire. ASSISTÊNCIA DE ENCENAÇÃO: Iara Costa. ENCENAÇÃO E DESENHO DE SOM: Gonçalo Barata.

ESTREIA: Escola Secundária D. Pedro V, MAIO; 2026.

Tito Lívio